Uma aula com Mário Sergio Cortella

26-07-2020



Como não apequenar a vida?


Mario Sergio Cortella: Dando-lhe sentido. A espiritualidade ou religiosidade é uma das maneiras de fazê-lo. A religiosidade, não necessariamente a religião. Religiosidade que se manifesta como convivência, fraternidade, partilha, agradecimento, homenagem a uma vida que explode de beleza.

Isso não significa viver sem dificuldades, problemas, atribulações. Mas, sim, que, apesar disso tudo, vale a pena viver. O meu livro "Viver em Paz para Morrer em Paz" parte de uma pergunta: "Se você não existisse, que falta faria?" Eu quero fazer falta. Não quero ser esquecido.

Fale mais da diferença entre religiosidade e religião.


Mario Sergio Cortella: Religiosidade é uma manifestação da sacralidade da existência, uma vibração da amorosidade da vida. E também o sentimento que temos da nossa conexão com esse mistério, com essa dádiva. Algumas pessoas canalizam a religiosidade para uma forma institucionalizada, com rituais, livros - a isso se chama "religião". Mas há muita gente com intensa religiosidade que não tem religião. Aliás, na minha trajetória, jamais conheci alguém que não tivesse alguma religiosidade.

Digo mais: nunca houve registo na história humana da ausência de religiosidade. Todos os primeiros sinais de humanidade que encontramos estão ligados à religiosidade e à ideia da nossa vinculação com uma obra maior, da qual faríamos parte.

De onde vem essa ideia?


Mario Sergio Cortella: Existe uma grande questão que é trabalhada pela ciência, pela arte, pela filosofia e pela religião. A pergunta mais estridente: "Por que as coisas existem? Por que existimos? Qual é o sentido da existência?" Para essa pergunta, há quatro grandes caminhos de resposta: o da ciência, o da arte, o da filosofia e o da religião.

De maneira geral, a ciência busca o como. A arte, a filosofia e a religião buscam o "porquê", o sentido. A arte, a filosofia e a religião são uma recusa à ideia de que sejamos apenas o resultado da junção casual de átomos, de que sejamos apenas uma unidade de carbono e de que estejamos aqui só de passagem. Como milhões de pessoas no passado e no presente, acho que seria muito fútil se assim fosse.

Eu me recuso a ser apenas algo que passa. Eu desejo que exista entre mim e o resto da vibração da vida uma conexão. Essa conexão é exatamente a construção do sentido: eu existo para fazer a existência vibrar. E ela vibra em mim, no outro, na natureza, na história.

Quais são os fatores que afetam o mundo contemporâneo?


Mario Sergio Cortella: Um fator, talvez o principal, foi que o século 20, apostando na ciência e na tecnologia, nos prometeu a felicidade iluminada e ofereceu angústia. Em prol da propriedade, sacrificou-se a vida, a convivência, a consciência. O stress tornou-se generalizado, afetando adultos, jovens e até as crianças.

Há uma grande diferença entre cansaço e o stress. O cansaço resulta de um trabalho intenso, mas com sentido; o stress, de um trabalho cuja razão não se compreende. O cansaço vai embora com uma noite de sono; o stress fica.

Há hoje uma forte cultura da pressa e da distração.


A tecnologia proporcionou-nos a velocidade. Mas, em vez de usá-la apenas para fazer as coisas rapidamente, passámos a viver apressadamente. Assim como existe uma grande diferença entre cansaço e stress, existe também entre velocidade e pressa.

Eu quero velocidade para ser atendido por um médico, mas não quero pressa durante a consulta. Quero velocidade para ser atendido no restaurante, mas não quero comer apressadamente. Quero velocidade para encontrar quem eu amo, mas não quero pressa na convivência.

Tempo é uma questão de prioridades. Muita gente argumenta não ter tempo para a espiritualidade, para cuidar do corpo. E segue nesse ritmo apressado até sofrer um infarto. Se não for fatal, o infarto funciona como um sinal de alerta. O dia continua a ter 24 horas, mas quem sobrevive passa a acordar uma hora mais cedo para caminhar e se exercitar. O impulso espiritual também é um sinal de alerta. Não há pressa em segui-lo. Mas cuidado: é muito arriscado adiar indefinidamente para o ano que vem.

(Entrevista via Planeta Sustentável)

Tipos de Religião, por Mario Sergio Cortella


Quais as diferenças das religiões? A quais diferentes propósitos elas servem em nossas vidas? O filósofo Mário Sergio Cortella dá-nos uma verdadeira aula sobre o tema. 

Há religiões que são sapienciais. Isto é, aquelas que você tem uma força de crença religiosa para poder viver melhor, refletir melhor. Como o Budismo, parte do Hinduísmo, do Xintoísmo. São crenças sapienciais, estão ligadas à sabedoria. Você as têm para poder fazer escolhas que sejam muito mais refletidas, mais meditadas.

Outras religiões são normativas, são prescritivas. É o caso das religiões do livro, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Todas as três têm normas escritas, inclusive têm mandamentos fechados. Neste sentido, ou você se enquadra naquilo que está no livro, na Torá dos hebreus, na Bíblia dos cristãos ou no Corão dos muçulmanos, ou você está fora.

Desse ponto de vista, dependerá muito. Há pessoas que têm uma religiosidade que as deixa muito mais livres. Isso não significa libertinas, perdidas, mas sim mais livres para escolher. Outras, nem sempre.

Mas, toda religião é a escolha de um caminho. Se você escolhe um caminho, você exclui todos os outros. Não há como fazer escolhas sem exclusão. Toda escolha é uma exclusão. Quando você me pergunta: quem é você? Ao dizer quem eu sou, estou também dizendo o que eu não sou. Quando alguém me pergunta: qual é a tua profissão? Eu digo eu sou professor e estou excluindo todo o restante. Portanto, toda escolha é exclusão.

Religiosidade ou religião? Qual a diferença, por Mario Sergio Cortella



Religião é escolha. Religiosidade não. Religiosidade é um sentimento, é uma inclinação, uma tendência a ter reverência pela vida. Religião é quando você pega a religiosidade e junta num credo, num sistema, numa estrutura. Portanto, você formaliza a sua religiosidade.

Religião é a religiosidade formalizada.

Religiosidade é um sentimento.

A parte de nós tem uma realidade muito funda e uma parte de nós tem religião. Há muitos que, apesar de declararem que têm religião... O Brasil tem algo inédito, que é "eu sou católico, mas não sou praticante". Algumas religiões nem entendem esta frase, porque, se você não é um praticante, você não participa da religião. No fundo, a pessoa está demonstrando que o que ela tem é mais religiosidade do que religião.