Ser egoista

04-07-2020

Costumas pensar em ti? Bom, o mais provável é responderes com um sim. Ok, então vamos lá... Caso quiséssemos contabilizar os pensamentos que passam pela nossa cabeça ao longo de um dia, seria complicado fazê-lo. É lógico pensar que entre os 70 mil pensamentos diários, a maior proporção, a parte vencedora, vai para nossas necessidades.

As nossas próprias alegrias, nossos próprios gostos, nossos próprios problemas, ou seja, pensamos mais em nós do que em qualquer outra coisa. Teoricamente seria lógico imaginar isso.

Depois, possivelmente uma importante parcela de pensamentos dirige-se às pessoas que amamos. Parceiro, filhos, amigos. Tarefas pendentes com eles, conflitos e lembranças exclusivas para cada pessoa.

E é claro que ainda sobra uma "pequena parcela" para pensarmos em temas inúteis, mundanos e cotidianos como "este programa de televisão está chato", coisas do dia-a-dia!

Quando dedicamos mais tempo aos outros do que a nós mesmos

Foi comprovado que o tempo que a nossa mente dedica ao resto do mundo muitas vezes é excessivo em relação ao tempo do qual poderíamos precisar para nós.

Digamos que às vezes o nosso cérebro, a nossa mente e a nossa vontade ficam sem espaço, sendo este ocupado por coisas que são alheias a nós e que inclusive, podem escapar do nosso controlo.

"Será que ele não gostou do que eu disse?" "É minha culpa, eu deveria ter agido de outra forma," ou a melhor, "Acho que sou muito egoísta..."

Frases negativas que nos fazem sentir mal ao nos fazerem "ver" que fizemos algo errado, ou pelo menos não suficientemente certo para outra pessoa. Pensamentos não dedicados a nós mesmos, em nossa defesa, e sim aos demais.

É incrível a capacidade que os seres humanos têm de enunciar na mente frases como as mencionadas, as quais têm a sua repercussão a nível emocional.

Poderíamos acreditar que pensar desta forma é inevitável. Há milhões de argumentos que validam que nos sintamos assim. Mas quantos existem para nos defender?

As mensagens educativas da nossa infância

A realidade é que ao longo de nossas vidas estamos expostos continuamente a mensagens educativas do género: "É preciso dividir," ou "Faz bem aos outros," ou "Faz o possível para que os outros sejam felizes."

São mensagens educativas porque somos alimentados com elas durante a infância. Parece que desde pequenos precisamos desse tipo de mensagem para criar os nossos próprios valores. No entanto, estas frases têm várias limitações para a pessoa adulta:

Em primeiro lugar, são ordens. Não são apenas frases, não são sugestões. Por isso, é como se nos obrigassem a sermos de uma determinada maneira.

"Eduque seu filho com sugestões," alguém poderia pensar. Nós já não somos crianças, podemos modificar e refletir sobre estas ordens, debatê-las.

Quem decide fazer o "bem" ou não somos nós mesmos. Quem decide dividir ou não os nossos recursos somos nós mesmos.

Em segundo lugar, são ordens dicotómicas, ou seja, "é preciso dividir" porque se não dividirmos estaremos a fazer algo errado. "Faz todo possível para que os demais sejam felizes," ou então serás um egoísta.

Não nos dão espaço para sermos "um pouco egoístas". É tudo ou nada. Bom ou mau. Talvez a pergunta seja "onde estão os tons de cinza neste preto e branco absoluto?"

E por último, a subjetividade. Ninguém escreveu nunca o que significa exatamente ser "bom," "egoísta" ou "altruísta."

Onde estão escritas as regras para que nos possamos considerar egoístas? Quantas vezes temos que olhar por nós mesmos e não pelos outros?

Os romanos usavam a palavra egoísmo para explicar a "prática do eu".

Pensar em ti e seres a tua prioridade


Afinal das contas, cada um tem a sua própria versão dos termos, e todos tentamos ver de maneira que sejamos os bons.

Racionalizamos, argumentamos, assumimos o papel de maus, castigamo-nos, esperando cumprir penitência por aquele mal enorme que cometemos. E é lógico. Afinal, somos nós mesmos os protagonistas da nossa própria história.

De vez em quando vemo-nos presos sem querer a uma lógica que não faz mais do que nos prejudicar. Vamos presenteando tempo, recursos e forças a pessoas que parecem não ter outro fim na vida que não seja esmagar-nos e não conseguimos parar. Tememos as consequências negativas. Temos medo de nos afastar do suposto caminho que marcaram para nós.

Refletir e racionalizar estes pensamentos, estas mensagens, com sossego e calma, pode ser o exercício de que nossa condição humana mais precisa.

Este pequeno espaço de tempo no qual, após refletir, nos damos conta de que "Talvez não seja tão mau. Talvez eu precise de tempo para mim. Talvez eu não queira dividir isto com ninguém. Talvez eu deva ser egoísta nesta situação."

Talvez ser egoísta em algumas situações seja algo justificado. Talvez ser egoísta só signifique que nos amamos a nós mesmos.